CHVNG/E prepara-se para implementar programa de gestão do sangue do doente

O CH de Vila Nova de Gaia/Espinho (CHVNG/E) está a dar os primeiros passos no sentido de implementar um programa de Patient Blood Management (PBM), visando otimizar o uso do sangue.  

Em entrevista à Just News, Manuel Figueiredo, diretor do Serviço de Imunohemoterapia e coordenador do programa, começa por esclarecer que "o uso ótimo do sangue pressupõe uma utilização segura (sem reações adversas), clinicamente eficaz (com benefícios para o doente) e eficiente (não se efetuando transfusões desnecessárias)".

“As transfusões são, por vezes, realizadas em situações onde a sua indicação é duvidosa", refere o médico. E é neste contexto que surge o conceito de programa de gestão do sangue do doente, denominado internacionalmente Patient Blood Management. Segundo o imunohemoterapeuta, “apesar de o princípio do PBM ser universal, a sua implementação depende das características de cada unidade hospitalar”.

“Trata-se de um processo multidisciplinar"

“A criação de um PBM deve ser realizada através de uma abordagem sistematizada e multidisciplinar, baseada em três princípios: 1) otimização do volume e da massa eritrocitária pré-operatoriamente 2) otimização da hemóstase para minimização das perdas hemáticas 3) otimização das condições para tolerância à anemia”, lembra.



O médico frisa que cada hospital tem características próprias, relacionadas, entre outras, com o tipo de assistência que fornece e as suas atribuições, conforme definido pela Administração Central do Sistema de Saúde (ACSS), de acordo com a legislação em vigor.

No caso do CHVNG/E, para além das referidas vantagens em termos de segurança e qualidade dos cuidados prestados aos doentes, segundo Manuel Figueiredo, o PBM poderá contribuir também para que este centro hospitalar "possa reduzir a relação de 31 unidades de eritrócitos transfundidas/100 altas e recuperar a autossuficiência em termos de reservas de sangue".

“Trata-se de um processo multidisciplinar, no qual é necessária a participação de todos os elementos que intervêm no processo transfusional. Deve ser realçado o papel dos conselhos de Administração e dos serviços de Anestesiologia, de Cirurgia e de Imunohemoterapia como principais intervenientes neste processo”, afirma.

"Programa multidisciplinar e multimodal de PBM"

Para o diretor clínico do CHVHG/E, José Pedro Moreira da Silva, faz todo o sentido a implementação de um programa PBM naquele CH. E recorda, aliás, que existem orientações europeias de março de 2017, direcionadas aos hospitais e autoridades nacionais de Saúde, que recomendam o PBM como uma estratégia a implementar. E, nesse contexto, foi iniciada a implementação de um programa a nível nacional para os doentes submetidos a cirurgias eletivas, através de um projeto-piloto, no qual estão incluídas nove unidades hospitalares.


Manuel Figueiredo e José Pedro Moreira da Silva 

O responsável sublinha que todos os doentes cirúrgicos eletivos devem ser avaliados atempadamente (4 a 6 semanas), "para coordenar o agendamento da cirurgia com otimização da hemoglobina e reservas de ferro dos doentes".

“Os doentes com anemia pré-operatória devem ser avaliados e tratados, caso contrário, aumenta a probabilidade de transfusão, aumenta a morbilidade, mortalidade e tempo de internamento”, salienta, acrescentando:

"Para implementar estas recomendações, deve ser desenvolvido um programa multidisciplinar e multimodal de PBM, que deve incluir a otimização pré-operatória da hematopoiese e do estado da coagulação, minimização da perda de sangue perioperatória (atenção à hemóstase cirúrgica) e avaliação da tolerância à anemia pós-operatória.”


Comissão PBM

De acordo com Manuel Figueiredo, no CHVNG/E o próximo passo será a apresentação do projeto PBM ao CA, aos funcionários do Serviço de Imunohemoterapia (SIH), aos médicos do Serviço de Anestesiologia e aos responsáveis pelo Serviço de Sistemas e Tecnologias de Informação que, refere, “estarão direta e ativamente envolvidos na sua execução”.

Pretende-se, ainda, criar uma Comissão PBM, "com a colaboração da Comissão Hospitalar de Transfusões, já existente".

Entre outras medidas, o coordenador do programa de PBM adianta que "já está em curso a recolha de dados históricos sobre a transfusão de concentrado de eritrócitos (CE) – por patologia, cirurgia, hemoglobina pré e pós-transfusão e comorbilidades do doente –, para orientação e priorização de tarefas".

Manuel Figueiredo adverte, contudo, que “o maior risco do projeto é o inerente à elevada sobrecarga de trabalho que o projeto implica para os intervenientes diretos, “previsivelmente mesmo fora do horário de trabalho e de forma não remunerada, a ser realizado num centro hospitalar com grave carência de recursos humanos”.



A entrevista completa pode ser lida no Hospital Público de outubro.

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