«O grande problema das ULS é não possuírem a autonomia que deviam ter»
Quando o médico de família Nuno Jacinto foi convidado, em janeiro de 2024, a integrar o Conselho de Administração da ULS do Alentejo Central, como diretor clínico para os Cuidados de Saúde Primários, as expectativas eram elevadas. O objetivo era existir "autonomia para implementar o projeto a que nos tínhamos proposto, ou seja, ter CSP fortes", afirma, em entrevista à Just News.
Nesse sentido, refere que enquanto esteve nesse cargo, até novembro de 2025, havia a ambição de "conseguir fazer a interligação com o hospital, ter esta visão integrada de todo o sistema, interagir com as autarquias, que são muito importantes neste processo, sobretudo numa região como a nossa, em que abrangemos 14 concelhos. Elas têm um papel fundamental na questão da proximidade, sobretudo em zonas do país com uma dispersão muito grande."
Nuno Jacinto
De acordo com Nuno Jacinto, que assumiu o cargo de presidente do Júri das Comunicações Livres Selecionadas das VIII Jornadas Multidisciplinares de MGF, "o grande problema das ULS é não terem a autonomia que deviam ter e ficarem dependentes de decisões de múltiplas entidades, seja da Tutela, da Direção Executiva do SNS, da Administração Central do Sistema de Saúde...".
E acrescenta: "E depois faltam algumas linhas orientadoras que estiveram pensadas ainda na altura da primeira DE-SNS e numa lógica de haver algumas balizas para a atuação das unidades, mantendo a individualidade de cada local. Obviamente que não é a mesma coisa estarmos no Alentejo ou no Porto, mas há aspetos que podiam ter sido minimamente orientados e que, de facto, ainda não foram contemplados."
O médico dá dois exemplos: "A questão do internato em MGF – de início, ninguém sabia muito bem como é que ia encaixar-se. Ou a particularidade do internato de Saúde Pública, que tem regras diferentes dos internatos hospitalares."
Em jeito de conclusão, refere haver "ainda muito a fazer, por exemplo, ao nível da orçamentação das ULS, da capacidade de efetuar uma contratualização mais individualizada a nível dos CSP, ou da possibilidade de pagar incentivos de forma rápida e ágil. A gestão pública tem imensas regras, é muito burocrática e esta cadeia de decisão com demasiados intervenientes dificulta bastante o processo local."
"O investimento nos CSP, enfim, fica um pouco esquecido"
Relativamente à falta de médicos de família, uma situação com difícil resolução, Nuno Jacinto reconhece que "de certeza que não há uma solução mágica, mas tem que se caminhar no sentido da sua resolução", acrescentando: "Continuamos a ter dificuldade em arranjar medidas estruturais que, sobretudo, permitam aos colegas que terminam a sua formação geral olhar para a MGF e afirmar, com convicção: ´É esta especialidade que quero escolher!`"
De acordo com o especialista em MGF, "o problema não está na especialidade em si, mas nas condições de trabalho que são oferecidas e com as quais são confrontados logo quando se deparam com a realidade durante os estágios nos CSP enquanto estudantes de Medicina. E pensam: ´Eu não quero estar focado em burocracias, ou que me deem tarefas que nada têm a ver com o facto de ser médico de família, e não aceito imposições que me impeçam de cuidar bem dos meus doentes. Portanto, vou procurar uma alternativa!`"
Sublinha ainda que "ouvimos muito dizer que os CSP são a base do sistema, que a MGF é deveras importante, que não podemos ter uma visão hospitalocêntrica, mas no fim do dia essa visão está lá. O investimento nos CSP, enfim, fica um pouco esquecido."
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Nuno Jacinto com os três grandes impulsionadores das Jornadas Multidisciplinares de MGF: Manuel Viana, Paulo Pessanha e Rui Costa
Apresentação de trabalhos: "temos que ser inovadores e exigentes"
A propósito do crescente número de eventos organizados, nomeadamente, por internos de MGF, Nuno Jacinto afirma ser "positivo que haja interesse na formação", mas refere ser "necessário garantir que essas reuniões tenham qualidade". Quanto à qualidade dos trabalhos que são apresentados, "é um aspeto que merece reflexão, no sentido de evoluirmos um pouco".
Na sua opinião, "era importante que os colegas mais velhos, assistentes, assistentes graduados e graduados sénior se envolvessem mais na produção de trabalhos Vai-se vendo, mas não é a regra. Efetivamente, a maioria é feita por internos. Também aqui é importante garantir a qualidade e percebermos porque é que fazemos um determinado trabalho."
E deixa um alerta: "Não pode ser só para conseguirmos uma publicação, mas sim porque temos alguma coisa diferente para mostrar – um caso que foi marcante, um relato que achamos que deve ser partilhado com os colegas... Por exemplo, é fácil perceber que alguém fazer uma estatística de quantos hipertensos existem na sua USF tem pouco ou nenhum interesse enquanto divulgação científica."
Assim, a mensagem central é clara: "Temos que ser inovadores e exigentes com aquilo que cada um de nós apresenta, e só assim conseguiremos ter uma MGF mais forte do ponto de vista científico."
A entrevista completa a Nuno Jacinto foi publicada no Jornal das VIII Jornadas Multidisciplinares de MGF.


