CHULN apresenta projeto de Hospitalização Domiciliária

A partir de janeiro de 2020, o Centro Hospitalar Universitário Lisboa Norte (CHULN) vai ter uma Unidade de Hospitalização Domiciliária (UHD). O projeto foi apresentado esta terça-feira e vai começar com 6 camas, esperando-se chegar às 20 no final do primeiro ano, segundo Teresa Rodrigues, coordenadora do Grupo de Trabalho da UHD.

Acompanhando a tendência atual, o CHULN quer apostar na UHD como “uma alternativa ao internamento convencional, que permite a prestação de cuidados no domicílio a doentes do foro médico ou pós-cirúrgico, em situação clínica transitória”, segundo Teresa Rodrigues.

Como disse à Just News a internista do Serviço de Urgência do CHULN, “doentes e familiares ficam mais satisfeitos e tranquilos quando podem recuperar na própria casa, onde têm as suas referências pessoais”.


Teresa Rodrigues

De acordo com a médica, “existe evidência de que o bem-estar associado tem um impacto extraordinariamente positivo na sua recuperação, sobretudo se se tiver em conta que quem mais pode beneficiar deste modelo são os idosos, com doenças crónicas e multimorbilidades, apresentando já um quadro confusional, que não se adequa ao movimento próprio de um hospital.”

Outras vantagens são a diminuição do risco de complicações e de infeções nosocomiais, menor mortalidade e menos custos, segundo Marco Narciso, internista no Hospital Pulido Valente - CHULN e um dos elementos do GT. “Com a UHD, consegue-se otimizar a acessibilidade ao internamento nos serviços de Medicina e centralizar os cuidados no doente.”

Marco Narciso realçou ainda as vantagens do modelo em termos de segurança do tratamento agudo de um conjunto variado de patologias, nomeadamente doença pulmonar obstrutiva crónica (DPOC), celulites/erisipela, infeções adquiridas na comunidade ou hospitalares e por micro-organismos.


Marco Narciso

Ainda de acordo com o médico, prevê-se aumentar a médio prazo o número de camas em casa. “O objetivo é atingir as 50 camas em 3 anos e as 100 em 5 anos, o que obriga a ter mais equipas.”

A UHD irá funcionar 24 horas por dia, com apoio médico e da Enfermagem em permanência ou em prevenção. Os destinatários são os residentes na zona de abrangência do centro hospitalar e quem cumpra os critérios próprios das UHD.

O projeto baseia-se em experiências anteriores de outras unidades nacionais, mas também internacionais, nomeadamente de Espanha, daí que no evento de apresentação tenha estado presente Andima Ozamiz, da UHD do Hospital Universitario Cruces, Biscaia, que deu a conhecer a experiência de mais de 30 anos. Atualmente têm mais camas de internamento em casa do que no hospital.

Hospitalização Domiciliária e requalificação do CHULN

Para Daniel Ferro, presidente do Conselho de Administração do CHULN, a UHD é “um terceiro hospital”. Na sua opinião, as mais-valias do projeto não se cingem apenas ao bem-estar do doente, mas também à diminuição dos custos, o que irá permitir “a médio prazo a requalificação do Hospital de Santa Maria (HSM) e o do próprio CHULN, numa linha altamente diferenciada, que trata essencialmente doentes críticos e de elevada severidade, com melhores condições de diagnóstico e de tratamento”.

Como acrescentou: “Propomo-nos à concretização de uma visão suficientemente partilhada e fundada das vantagens deste modelo, que permite tratar os doentes com maior satisfação, eficiência, mantendo a eficácia clínica, ao mesmo tempo que se adapta a estrutura com melhores condições assistenciais e de trabalho.”


Elementos do Grupo de Trabalho da UHD: Marco Narciso, Susana Martins (administradora da área), Matilde Godinho (enfermeira), Teresa Rodrigues, Célia Cardoso (enfermeira), Paula Branco Morais (enfermeira-chefe), Marisa Silva (médica), Micaela Gomes (assistente social) e Jorge Ruivo (médico)

“Só vamos ganhar camas à medida que avançamos para o domicílio”

Relembremos que, em Portugal, a primeira UHD teve início em outubro de 2015 no Hospital Garcia de Orta, sendo já uma realidade em 23 unidades hospitalares do país, como recordou, à Just News, Delfim Rodrigues, coordenador nacional do Programa de Hospitalização Domiciliária. Para o responsável, o anúncio de mais uma UHD, e num grande centro hospitalar, só podia ser “uma excelente notícia”.


Delfim Rodrigues

“O CHULN compreendeu, claramente, que a única solução que tinha para fazer face aos desafios da demografia – mais idosos, agudização de doenças crónicas e Medicina de precisão, centrada no doente e na família – só poderia passar pelo domicílio”, disse.

Para o coordenador, as mudanças sociodemográficas vão obrigar os hospitais a terem mais camas, o que não significa necessariamente mais hospitais. “No futuro, só vamos ganhar camas à medida que avançamos para o domicílio, oferendo o mesmo conteúdo e essência técnica de uma cama hospitalar”, rematou.

Com a UHD do CHULN, em janeiro, caminha-se para as 24 UHD em todo o país. “Num curto período de tempo conseguiu-se tratar 3 mil doentes, ou seja, é como se tivéssemos construído um hospital com 14 camas, o que corresponde, em capital fixo, a cerca de 200 milhões de euros.”

Delfim Rodrigues enalteceu ainda o trabalho em equipa destas unidades e como é possível apostar na promoção da saúde e na proteção da doença:

“A evidência científica demonstra que, além da maior satisfação de doentes e de familiares, verifica-se menos cerca de 30% de reinternamentos, uma redução em 24% da taxa de mortalidade e os doentes com 75 anos ou mais apresentam melhores condições de saúde no momento da alta.”


Daniel Ferro

A apresentação pública da UHD do CHULN foi um “momento histórico” das comemorações dos 65 anos do Hospital de Santa Maria e dos 66 anos da Faculdade de Medicina de Lisboa (FMUL), como realçou Daniel Ferro. Presentes estiveram o secretário de Estado da Saúde, António Sales, e Fausto Pinto, diretor da FMUL, assim como vários profissionais do CHULN e de outras entidades da área da saúde.

O evento, que teve como temática central “Cuidados para além das fronteiras do hospital”, terminou com uma mesa redonda sobre “A Saúde em Portugal na próxima década”. Os palestrantes foram Raquel Varela, da Faculdade de Ciências Sociais e Humanas da Universidade Nova de Lisboa (UNL); Miguel Gouveia, da Universidade Católica de Lisboa; e Constantino Sakellarides, da Escola Nacional de Saúde Pública da UNL.


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