Opinião

«Aprender com a crítica no Hospital Público»


Alexandre Lourenço

Presidente da Associação Portuguesa de Administradores Hospitalares (APAH)



Nos últimos tempos, temos vindo a ser bombardeados por cada vez mais exemplos concretos de falência dos serviços públicos de saúde. Desde o caso das ecografias às ruturas nos serviços de Urgência, todos são casos que diminuem a confiança da população no sistema de saúde e aumentam o descontentamento dos profissionais.

Noutros tempos, se uma fração destes casos tivesse ocorrido, teríamos manifestações, cordões humanos, cortes de estradas e vigílias permanentes. Infelizmente, entrámos num novo normal, em que parece que tudo pode acontecer.

Muitos dos problemas não são novos. Podemos mesmo afirmar que a maioria deles se arrasta há anos. Como bons portugueses, fomos tapando os buracos e minimizando os danos.


Alexandre Lourenço

Evidentemente que o contexto de desinvestimento progressivo desde 2009 e a centralização da decisão nos ministérios da Saúde e das Finanças agravou, sobremaneira, os problemas.

Contudo, a raiz da questão estava e está lá. De forma confiante, fomos embandeirando em arco com a redução histórica da mortalidade materna e infantil, com o aumento da esperança de vida ou com a diferenciação atingida por algumas equipas.

Independentemente do contexto político, a maioria das medidas para reformar o SNS enfrentou o “coro de vozes do ataque às conquistas do SNS”. Mesmo quando eram por demais evidentes os sinais de degradação dos serviços públicos.

Ao invés de aprendermos com os sucessivos casos, num vazio de ideias, surge sempre a via facilitista e desresponsabilizante do ataque ao mensageiro. Todos os acontecimentos menos positivos do nosso sistema de saúde devem ser alvo de reflexão profunda.

Não que todas as críticas sejam justas ou genuínas, mas todas têm um fundo de problema que merece atenção e eventual resolução. O mais dramático hoje é a incapacidade para apresentar um projeto ou uma ideia para o SNS que responda e ultrapasse a sucessão de casos.

Em qualquer organização, a desvalorização dos problemas, a intolerância à crítica e a incapacidade para se reformar conduz à sua obsolescência. Esta incapacidade para aprender com os erros é, certamente, parte do problema do SNS.

O SNS deve ser uma organização de aprendizagem em que, a cada dia, a crítica é valorizada e enquadrada. Muito caminho há para fazer.



Artigo publicado no jornal Hospital Público de novembro/dezembro.

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